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NOTÍCIAS DO DIA

DGS

Nove casos de sarampo confirmados este ano, todos notificados através do SINAVE

Entre 1 de janeiro e 18 de agosto foram confirmados nove casos de sarampo em Portugal, notificados através do Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica (SINAVE), adiantou a Direção-Geral da Saúde (DGS) à Lusa.

Três dos casos foram importados e outros três tiveram origem em Portugal; a origem dos restantes três continua em investigação. Foi identificada uma única cadeia de transmissão limitada, com três casos associados, que foi alvo de investigação epidemiológica pela rede de autoridades de saúde, com implementação de medidas de controlo e prevenção ajustadas ao nível de risco.

A DGS classifica a elevada cobertura vacinal como uma importante barreira à transmissão do vírus no país, de acordo com o Relatório do Programa Nacional de Vacinação de 2025. Admite que a circulação internacional do vírus pode resultar na importação de casos, sobretudo num contexto de elevada mobilidade, mas sublinha que isso não significa, por si só, risco de transmissão sustentada em Portugal. Está a acompanhar a situação epidemiológica nacional e internacional, incluindo a evolução no Brasil e no estado de São Paulo.

A quem viaja para áreas afetadas, a DGS recomenda vacinação atualizada e verificação do boletim antes da partida, e uma consulta pré-viagem sempre que viajem crianças pequenas, para avaliar a necessidade de antecipar a vacinação.

Duas notas para quem gere uma unidade, e assinalamo-las como leitura nossa. A primeira é que o número interessa menos do que o mecanismo que o produziu: nove casos confirmados são nove notificações que alguém fez. O sarampo é uma das infeções mais contagiosas que existem, transmite-se por via aérea, e a deteção depende do grau de suspeição de quem atende. A segunda é a consulta pré-viagem — procura sazonal que aumenta com as áreas afetadas e que muitas unidades privadas prestam.

Fonte: Lusa

LITERACIA EM SAÚDE

Médicos gerados por inteligência artificial promovem vaselina no umbigo no TikTok

Circula no TikTok, em várias línguas, uma série de vídeos apresentados por supostos médicos e profissionais de saúde que, na verdade, foram gerados por inteligência artificial. Nesses vídeos, os falsos clínicos afirmam que aplicar vaselina no umbigo à noite melhora a digestão, reduz o inchaço, aprofunda o sono, melhora a pele do rosto, fortalece o cabelo e as unhas e resolve os pés frios.

Nada disto tem sustentação. Paulo Santos, especialista em Medicina Geral e Familiar e professor na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, declarou ao Viral que não existe evidência científica que prove qualquer um dos benefícios alegados. O único efeito real da vaselina naquele contexto é hidratar a pele daquela região.

O médico aponta a provável origem do mito: uma tradição antiga da medicina ayurvédica, que considerava o umbigo uma porta de entrada para o corpo e defendia que os óleos ali aplicados penetrariam mais facilmente. E explica por que razão a fisiologia não acompanha a crença — a absorção através da pele é, em geral, limitada. Dá o exemplo dos anti-inflamatórios tópicos, concebidos precisamente para atuar por essa via: mesmo nesses, a absorção é reduzida e o efeito fica sobretudo limitado à zona de aplicação.

Onde pode haver alguma sensação de melhoria, o mecanismo é outro. Se a aplicação for acompanhada de massagem em toda a barriga, e não apenas no umbigo, pode haver alívio sintomático — não pela vaselina, mas pelo gesto de massajar, como acontece nas cólicas dos bebés ou em pessoas com obstipação e distensão abdominal. Mesmo aí, sublinha o médico, trata-se de lidar com sintomas e não de terapêutica que atue na origem do problema. Quanto ao sono, se o gesto se tornar um ritual antes de dormir, pode entrar na rotina de adormecer — mas daí a melhorar o padrão de sono, conclui, vai uma distância muito grande.

O que distingue este caso dos mitos habituais é o rosto. Não é um utilizador anónimo a dar um conselho: é uma figura fabricada com bata e postura de consultório, desenhada para se parecer com a autoridade que o utente reconhece. É esse rosto que chega à sala de espera antes do profissional real.

SAÚDE PÚBLICA

Estudo associa o calor extremo a mais de 30 diagnósticos, muitos deles ignorados nas urgências

Para além da exaustão pelo calor, do golpe de calor e da desidratação, investigadores identificaram mais de 30 diagnósticos que registam aumentos significativos durante períodos de calor intenso. O estudo foi publicado na revista Science Advances e é liderado por Hyojung Jang, da Northwestern University, nos Estados Unidos.

A análise abrangeu 1803 diagnósticos registados em quase um milhão de atendimentos em serviços de urgência e consultas de cuidados urgentes em Chicago, entre maio e setembro, de 2011 a 2023. Os autores sublinham que as conclusões se limitam a Chicago e devem ser replicadas noutras populações, climas e sistemas de saúde.

Entre os diagnósticos identificados estão erupções e inchaços cutâneos, insuficiência renal aguda, agravamentos de esclerose múltipla, perturbações mentais e comportamentais, e mordidas e picadas de insetos — quadros associados ao calor e frequentemente ignorados em contexto de urgência. A equipa identificou ainda 23 diagnósticos específicos de lesão, intoxicação ou causas externas que cumpriam os critérios para serem considerados relacionados com o calor, incluindo traumatismos acidentais e violentos.

O responsável pelo estudo resume o argumento: acompanhar apenas as doenças relacionadas com o calor mais conhecidas leva a subestimar o verdadeiro impacto do calor na saúde. Os autores apontam também o efeito de ilha de calor urbana, que pode elevar as temperaturas locais em vários graus e prolongar a duração destes episódios.

A recomendação prática é a que nos interessa: alargar os alertas clínicos a um conjunto mais amplo de patologias, em particular complicações renais e do equilíbrio hídrico, que muitas vezes surgem vários dias depois da exposição ao calor — e não durante. Antecipar isso permite preparar-se para picos de procura durante e imediatamente após episódios de calor extremo.

Fonte: Euronews

ECDC

Ébola na RDCongo ultrapassa os 5600 casos confirmados e as 2700 mortes

A República Democrática do Congo comunicou um total de 5656 casos confirmados e 2715 mortes associadas, com dados até 24 de agosto, segundo a atualização do Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC). Há 792 doentes internados em isolamento e 1245 pessoas recuperaram. O balanço representa mais 72 casos confirmados e mais 35 mortes em relação ao relatório do dia anterior.

A província de Ituri continua a ser a mais afetada, com 4716 casos e 2119 mortes, distribuídos por 28 das suas 36 zonas de saúde. No Kivu Norte foram comunicados 735 casos e 501 mortes. No conjunto das províncias afetadas, 80,9% dos contactos identificados estão sob vigilância.

No Uganda, o quadro é o oposto. Foram comunicados 20 casos confirmados e duas mortes, o último caso foi reportado a 21 de junho e o Ministério da Saúde declarou o fim do surto a 28 de julho, doze dias depois da alta do último doente. A Europa registou dois casos importados este ano, ambos provenientes de zonas afetadas: um cidadão norte-americano evacuado para a Alemanha em maio, e um caso comunicado por França a 24 de junho.

Recordamos o que noticiámos na edição 906: a OMS classificou o risco para os "restantes Estados-Partes", grupo onde Portugal se insere, como baixo — e recomendou, ainda assim, a difusão das definições de caso a unidades de saúde públicas e privadas, incluindo clínicas de viagem e medicina geral.

Fonte: ECDC

EVIDÊNCIA CIENTÍFICA

Guia oficial da menopausa em Espanha assenta em valores de estudos feitos com homens

A Agência Espanhola de Segurança Alimentar e Nutrição (Aesan) vai rever o seu relatório sobre alimentação e hábitos saudáveis durante a menopausa, depois de várias investigadoras terem contestado que parte das recomendações sobre necessidades nutricionais das mulheres nesta fase assenta em estudos realizados exclusivamente com população masculina.

O documento, publicado em março, utiliza valores provenientes de investigações da Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) sem alertar expressamente para o facto de os estudos de referência terem sido feitos com homens. A própria agência reconheceu que houve uma omissão de advertência e defendeu a necessidade de ampliar a investigação específica sobre mulheres na menopausa. O comité científico da Aesan foi encarregado da revisão.

O caso expõe um problema estrutural da investigação médica que a Euronews sublinha: durante décadas, os homens estiveram sobre-representados nos ensaios clínicos e noutros estudos, com as mulheres excluídas ou sub-representadas. Parte do conhecimento sobre doenças, sintomas, tratamentos e dosagens foi assim construída tomando o corpo masculino como referência, apesar de existirem diferenças biológicas que influenciam tanto o aparecimento de patologias como a resposta a medicamentos. O resultado possível é menor precisão no diagnóstico, na prevenção e nos cuidados dirigidos a mulheres.

Para quem exerce, a lição não é sobre nutrição. É sobre a cadeia de confiança: um guia oficial, emitido por uma agência nacional, com valores de uma autoridade europeia — e ainda assim com uma advertência em falta que só apareceu depois de investigadoras a procurarem. Vale para qualquer documento que se aplique sem ler a metodologia que o sustenta.

Fonte: Euronews

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